quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Artigo - Brasil: O Paradoxo do Ensino Jurídico – Quantidade versus Qualidade

 


Por Dr. Leopoldo Martins Filho

O Brasil é um caso único no mundo quando o assunto é a formação de bacharéis em Direito. Enquanto o resto do planeta soma cerca de 1.100 faculdades de Direito, o país sozinho abriga 1.240 instituições que oferecem o curso. Esse cenário faz do Brasil um verdadeiro "complexo industrial" de formação jurídica, mas também revela uma série de problemas estruturais que impactam a qualidade do ensino, a atuação profissional e, principalmente, o acesso à Justiça pela população.

Os números que assustam.

· 4 milhões de bacharéis em Direito: Esse número colossal representa aproximadamente 2% da população brasileira, uma proporção que não encontra paralelo em nenhum outro país.

· 1,4 milhão de advogados: Desses bacharéis, mais de um milhão estão inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o que coloca o Brasil entre os países com mais advogados por habitante no mundo.

· Concorrência desenfreada: A saturação do mercado jurídico resulta em uma competição acirrada, com muitos profissionais subempregados ou atuando de forma precarizada.

A Defasagem Curricular e as Cadeiras Tradicionais.

Um dos maiores problemas do ensino jurídico no Brasil é a defasagem curricular. Muitas faculdades ainda mantêm grades curriculares ultrapassadas, focadas em disciplinas tradicionais que não dialogam com as demandas e os problemas atuais da sociedade. Enquanto o mundo enfrenta desafios como a transformação digital, as mudanças climáticas, a proteção de dados, a diversidade e inclusão, e a reforma do sistema de Justiça, muitas faculdades de Direito continuam presas a um modelo de ensino que prioriza a memorização de códigos e leis, sem estimular o pensamento crítico ou a resolução de problemas reais das novas demandas.

As Necessidades da Sociedade Ignoradas.

O Direito é uma ciência social aplicada, e sua função principal é servir à sociedade. No entanto, a formação dos bacharéis no Brasil muitas vezes não os prepara para lidar com questões urgentes, como:

· Acesso à Justiça: A população carente ainda enfrenta enormes dificuldades para ter seus direitos garantidos, e muitos advogados não estão preparados para atuar nesse contexto.

· Tecnologia e Direito Digital: A revolução tecnológica exige profissionais capacitados para lidar com temas como inteligência artificial, criptomoedas, crimes cibernéticos e proteção de dados, mas essas disciplinas ainda são raras nas grades curriculares.

· Sustentabilidade e Direito Ambiental: Em um mundo cada vez mais preocupado com as mudanças climáticas, o Direito Ambiental ainda é tratado como uma disciplina secundária na maioria das faculdades.

· Direitos Humanos e Diversidade: Questões como igualdade de gênero, direitos LGBTQIA+, combate ao racismo e inclusão social são urgentes, mas muitas vezes negligenciadas no ensino jurídico.

O Prejuízo para o Jurisdicionado.

A má qualidade do ensino jurídico e a defasagem curricular têm impactos diretos na sociedade, especialmente no jurisdicionado – aqueles que buscam o sistema de Justiça para resolver seus conflitos. Entre os principais problemas estão:

· Serviços jurídicos de baixa qualidade: Profissionais mal formados podem cometer erros graves, prejudicando os interesses de seus clientes.

· Superlotação do Judiciário: A falta de preparo dos advogados contribui para o aumento de processos mal fundamentados, agravando a morosidade da Justiça.

· Desvalorização da profissão: A concorrência excessiva e a precarização dos honorários resultam em serviços jurídicos de baixo custo e, consequentemente, de baixa qualidade.

Caminhos para a Transformação.

Para reverter esse cenário, é fundamental:

1. Reformular as grades curriculares: As faculdades de Direito precisam incluir disciplinas que dialoguem com as demandas atuais da sociedade, como Direito Digital, Ambiental, Internacional e Direitos Humanos.

2. Fortalecer o Exame da OAB: O exame da Ordem deve ser mantido como um filtro essencial para garantir a qualidade mínima dos profissionais que ingressam no mercado.

3. Investir na formação continuada: Advogados e bacharéis devem ser incentivados a buscar especializações e atualizações constantes.

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